Por que o Setor Público Mede Cada Linha de Software e o Setor Privado Não? Os Benefícios que o Governo Enxergou e Sua Empresa Está Ignorando
O governo brasileiro, com orçamento apertado e sob fiscalização permanente, decidiu que não paga mais por hora trabalhada. Ele paga por resultado medido. Enquanto isso, empresas privadas seguem assinando contratos de software no escuro. Este artigo explica o que o setor público descobriu, quanto isso economizou, e quanto dinheiro sua empresa está perdendo por não fazer o mesmo. O paradoxo que ninguém quer admitir: Existe uma inversão curiosa no mercado brasileiro de tecnologia. O setor público, frequentemente acusado de ineficiência, é hoje o comprador de software mais maduro do país. Órgãos como TCU, CAIXA, FNDE, tribunais e ministérios exigem que cada contrato de desenvolvimento seja medido, dimensionado e pago com base em métricas objetivas, principalmente a Análise de Pontos de Função (APF). Já o setor privado, que se orgulha de ser ágil e orientado a resultados, continua contratando fábricas de software, squads e consultorias por hora, por posto de trabalho ou por "sprint entregue", sem nenhuma medida objetiva do que foi realmente produzido. A pergunta que este artigo responde é simples: se métricas fossem burocracia inútil, por que o comprador mais fiscalizado e com orçamento mais limitado do Brasil faria questão delas? Como tudo começou: o dia em que o TCU nomeou o problema Em 2006, o Tribunal de Contas da União analisou contratos de TI da administração pública e identificou uma distorção que batizou de forma brutal. Segundo o Acórdão 786/2006 do Plenário do TCU, existe um "paradoxo do lucro-incompetência": quanto menor a qualificação dos profissionais alocados na prestação do serviço, maior o número de horas necessário para executá-lo, maior o lucro da empresa contratada e maior o custo para a Administração. O tribunal também apontou a tendência de se remunerar todas as horas de disponibilidade dos empregados terceirizados, ainda que improdutivas, pela dificuldade de controlar a atividade efetiva desses profissionais. Pare e releia. O TCU descobriu, com dados de auditoria, que pagar por hora premia a incompetência. O fornecedor lento ganha mais que o fornecedor competente. Esse incentivo perverso existe em qualquer contrato por hora, público ou privado. A diferença é que o setor público foi obrigado a encarar o problema, e o privado ainda finge que ele não existe. A partir dessas críticas, e com a entrada em vigor da Instrução Normativa 04/2008 da SLTI, o modelo de pagamento por horas ou por disponibilidade de profissionais passou a ser duramente combatido, porque a mensuração por horas trabalhadas impede a remuneração da contratada pelo que foi efetivamente executado. O Acórdão 1.782/2007 do Plenário determinou que os órgãos realizassem o planejamento das necessidades de TI contemplando a estimativa prévia de quantitativos de serviços demandados em pontos de função, tanto na manutenção quanto no desenvolvimento de sistemas. E o próprio TCU passou a recomendar modelos que privilegiem a remuneração da contratada mediante a mensuração de resultados, a exemplo da análise por Pontos de Função, método padronizado largamente utilizado no mercado, buscando eliminar a possibilidade de remunerar com base na quantidade de horas trabalhadas ou nos postos de trabalho disponibilizados. O resultado em números: o preço do software despencou Aqui está o benefício que o setor privado não enxerga, em reais. Quando você mede o que compra, o preço cai, porque o mercado passa a competir por eficiência e não por volume de horas. Enquanto estatísticas do Gartner Group apontavam para um preço unitário médio na ordem de R$ 2.200 por ponto de função, os dados históricos da própria administração pública brasileira apontavam um preço na ordem de R$ 800, e o preço médio praticado por fábricas de software em licitações chegou a cerca de R$ 400 por ponto de função. Traduzindo: o comprador que mede pagou algo entre 3 e 5 vezes menos pela mesma unidade de software que a referência internacional de mercado. Não porque o governo negocia melhor, mas porque a métrica transforma software, um serviço intangível e opaco, em um produto comparável, auditável e leiloável. Sem métrica, você não compara propostas. Compara promessas. A prova de que funciona: o governo dobrou a aposta Se métricas fossem só burocracia, o setor público teria abandonado a prática na primeira oportunidade. Aconteceu o contrário. Duas décadas depois, o modelo foi reforçado e modernizado: Em 2020, o TCU auditou 55 contratações públicas federais baseadas em UST (Unidade de Serviço Técnico) e concluiu que a UST não pode ser aceita como métrica sem a devida padronização, constatando deficiência na estimativa de preços, quantitativos baseados em parâmetros injustificados, não vinculação dos serviços a resultados e assimetria de informação entre a administração e as empresas. Ou seja, quando tentaram usar "métricas de fachada", o controle rejeitou. Hoje, os roteiros de métricas dos órgãos federais estão alinhados à Portaria SGD/MGI nº 750, de 20 de março de 2023, que estabelece que, independentemente da modalidade de contratação, deve-se aferir a entrega de produtos, e incorporam inclusive o Simple Function Point (SFP), método compatível com o IFPUG, projetado para ser ágil, rápido e leve, útil desde o início do desenvolvimento para estimar esforço e tamanho funcional. Note o detalhe: o governo já resolveu até a objeção do "mas nós somos ágeis". O SFP e roteiros como o do SISP versão 2.3 foram desenhados exatamente para medir desenvolvimento ágil, sprints e squads. O TST, por exemplo, contrata fábrica de software com metodologia ágil desde 2014 e evoluiu a partir da métrica de Pontos de Função para criar sua própria métrica de remuneração por resultado, o Ponto de Especificação por Exemplo. Órgão público iterando e evoluindo métrica enquanto empresa privada ainda paga timesheet. E a lista de quem contrata serviços de métricas hoje é longa e verificável nos portais de compras públicas: CAIXA Econômica Federal, FNDE, ANTT, TRF da 5ª Região, TJ-RJ, TJ-RO, TCE-GO, TCE-PE, PRODEST-ES, entre dezenas de outros. São licitações específicas para contagem, aferição e auditoria de pontos de função. O setor público não só usa métricas, ele contrata especialistas independentes para conferir as contagens do fornecedor. É a lógica do auditor: quem mede não pode ser só quem entrega. Os 5 benefícios que o setor público enxergou (e que valem dobrado para sua empresa) 1. Fim do cheque em branco. Com APF, o contrato define um preço por unidade de funcionalidade antes de começar. O escopo pode mudar, o preço unitário não. Sua empresa sabe hoje quanto custa "um ponto de função" dos seus fornecedores? Se não sabe, você está comprando quilo de software sem balança. 2. Comparabilidade entre fornecedores. O próprio TCU, ao fiscalizar contratações de sistemas, constatou que a Análise de Pontos de Função é a métrica mais utilizada e a considerou adequada, justamente porque mede o que o software faz, e não como ele foi construído. Isso significa que a proposta da fábrica A e da fábrica B ficam comparáveis na mesma régua, independentemente de tecnologia. No privado, cada proposta vem em uma "moeda" diferente e a decisão vira aposta. TCU 3. Inversão do incentivo perverso. Pagando por resultado medido, o fornecedor eficiente ganha mais e o ineficiente ganha menos. O paradoxo do lucro-incompetência morre no dia em que a métrica entra no contrato. 4. Previsibilidade de orçamento e prazo. A APF permite estimar tamanho, esforço, custo e prazo nas fases iniciais do projeto, com base em regras públicas e internacionais (ISO/IEC 14143, manual CPM do IFPUG). É a diferença entre planejar o ano de TI com engenharia ou com achismo. 5. Poder na renegociação e na disputa. Quando há divergência com o fornecedor, quem tem contagem tem argumento. Quem não tem, tem opinião. Órgãos públicos ganham discussões contratuais com laudos de contagem. Empresas privadas costumam perder essas discussões no jurídico, pagando por retrabalho que nunca deveria ter sido cobrado. As três objeções clássicas do setor privado, respondidas "Métrica é burocracia, vai travar meu time." O governo federal, a entidade mais burocrática do país, adotou o Simple Function Point exatamente para medir sem travar. Se dá para medir squad ágil em ministério, dá para medir na sua empresa. A contagem é feita por especialista, em paralelo, sem tocar no ritmo do time. "Meu contrato ágil por sprint já é pago por entrega." Não é. Sprint é unidade de tempo, não de valor. Pagar por sprint é pagar por hora com outro nome. A pergunta continua sem resposta: quanto de funcionalidade cada sprint entregou? Duas squads com o mesmo custo mensal podem estar entregando volumes de software radicalmente diferentes, e sem métrica você nunca vai saber qual delas está te custando o dobro. "Contratar métricas custa caro." O custo de um serviço de contagem e auditoria de pontos de função é tipicamente uma fração pequena do valor do contrato medido. Contra ele, coloque na balança a diferença de preço que o setor público capturou ao medir. Se a métrica reduzir seu custo unitário de software em apenas 15%, e os dados públicos sugerem potencial muito maior, ela se paga muitas vezes no primeiro ano. Quanto sua empresa está perdendo agora? Faça uma conta rápida. Some tudo que sua empresa paga por ano a fábricas de software, consultorias de desenvolvimento, squads alocadas e sustentação de sistemas. Agora responda: qual foi o tamanho funcional entregue por esse valor? Se a resposta é "não sei", sua empresa está exposta exatamente à distorção que o TCU documentou em 2006: pagando mais para quem entrega menos, sem conseguir provar nem perceber. O setor público resolveu isso não por virtude, mas por necessidade: orçamento limitado, fiscalização permanente e obrigação de prestar contas. Sua empresa tem as duas primeiras condições. Falta a terceira: alguém cobrando a conta. A métrica é essa cobrança, institucionalizada. Como começar a medir sem parar a operação. A BRAESP atua exatamente na fronteira que este artigo descreve: levar para empresas privadas a disciplina de medição que amadureceu nas contratações públicas. Nossa área de Métricas de Software realiza contagem de Pontos de Função (IFPUG e SFP), auditoria de faturas de fábricas de software, estabelecimento de baseline funcional do seu portfólio de sistemas e desenho de contratos de TI remunerados por resultado, com os mesmos padrões exigidos pelo TCU e pelo SISP, aplicados à realidade e à velocidade do setor privado. Também atendemos órgãos públicos que precisam de contagem independente e defesa técnica de medições.
7/8/20261 min ler
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